Memórias de Carlos Herculano Lopes

 

Imaginem um jovem francês que, em 1892, quando cursava o último ano de medicina na Universidade de Paris resolveu abandonar tudo e, de posse de uma herança de seu pai, falecido dois anos antes, seguir uma atriz, pela qual tinha se apaixonado, em turnê pela América do Sul. Pensem ainda nesse rapaz, de origem aristocrática, que ao chegar no Rio de Janeiro foi abandonado por sua amante e viu – se aos 24 anos sozinho, sem grana, sem amor, perambulando pelas ruas do Rio? E mais: sem poder voltar para casa, já que havia envergonhado o nome dos seus?

Estamos falando de Alphonse Marie Edmond Pavie, que alguns anos depois do início dessa história se tornaria um médico lendário em todo o Norte/ Nordeste mineiro. “O povo o chamava de doutor Pavio”, costumava dizer meu pai, que era farmacêutico em Coluna, por onde Pavie passou diversas vezes, tratando da hanseníase que nos idos de 1940, 1950 era muito comum na região. Portanto, nasci ouvindo falar dele. (...)

O doutor “Pavio” iniciou o tratamento pioneiro com hansenianos e, em 1924, noutro lance ousado, levou luz elétrica para Itamarandiba, com todo o material vindo da França. Os equipamentos iam para lá em lombo de burro, após chegar de trem até Diamantina. Amigo pessoal de Juscelino Kubitscheck, que dizia por ele nutrir uma profunda amizade, Alphonse Pavie morreu em 1954, sem nunca mais haver voltado à França e talvez, sem ter, uma vez sequer, se referido à ex – amante. Por sorte dos pobres e desvalidos de Minas. 
 
(Adaptado do Jornal Estado de Minas, 09/08/2005 por Cristielle M. F. Pimenta)
(Referência da Imagem: arte digital por Cristielle M. F. Pimenta)

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