Lendas

Lenda do Monstro de Itamarandiba em Cordel

Por Olegário Alfredo, cordelista de Teófilo Otoni

 

 

O Monstro de Itamarandiba
Vou contar para meu filho
Tudo que ouvi de meus pais
Assim com o passar do tempo
Não esqueceremos jamais.
O caso que vou contar
É mesmo de arrepiar
Desde nossos ancestrais.
Tem coisas por este mundo
Que existem de verdade
Não é folclore nem crendice
É pura veracidade
Pegue com Deus a rezar
E a maldade te livrar
Do mundo da crueldade.
Os monstros são criaturas
Vindos da imaginação
Povoam nossas cabeças
Conforme a superstição
Temos monstros populares
Visto por todos os lugares
Provocando assombração.
Há muitos anos atrás
No tempo da escravatura
Os casos eram contados
E não lidos na escritura
Tinha monstro horroroso
Grandalhão e pavoroso
E nada de formosura.
 
Existe um monstro medonho
De causar dor de barriga
Há muito tempo ele vive
Lá por Itamarandiba
O seu modo assustador
Causa espanto e causa horror
Quem zombar de sua vida.
Este monstro sempre é visto
No Vale Jequitinhonha
Ele é gordo feito porco
E de uma cara medonha
As crianças da região
Se dormir sem oração
Suam frio pela fronha.
Pois agora vou contar
Como surgiu este monstro
O seu modo de agir
A vocês logo demonstro
Quem for a Itamarandiba
Sem rezar reza comprida
Irá direto a seu encontro.
Conta-se que certa vez
Um ricaço fazendeiro
Desentendeu com o vigário
Por causa de bom dinheiro
O padre por natureza
Entendendo a safadeza
Deu uma de mandingueiro.
 
O fazendeiro abriu a boca
Maldizendo do vigário:
Você é gordo feito mula
Come até fora do horário.
Logo digo sem temer
Que o padreco também crer
É no dinheiro do operário.
Coitado do fazendeiro
Ao dizer o que não devia
Sua vida virou inferno
A partir daquele dia
Pois o vigário no ofício
Representa Jesus Cristo
No altar da sacristia.
Vou dizendo os sucedidos
Caso de monstruosidade
Cometidos pelo monstro
Pelas ruas da cidade
O monstro só quer vingar
Pondo logo a assustar
Todos da comunidade.
O vigário rancoroso
Disse para o fazendeiro:
Vou rogar-lhe uma praga
Bem pior que feiticeiro
- Comerás tudo pela frente
Calango, sapo e serpente
E sola de sapateiro.
 
E o vigário não parou
E mais praga foi jogando:
- Fazendeiro excomungado
O pior está lhe esperando
Se você quiser saber
De tão gordo vai morrer
Com a barriga estourando.
E no dia de seu enterro
Para puxar o caixão
Só com um carro de boi
De oito juntas pelo chão
E o corpo bem enterrado
Na Matriz do padre amado
Para não pedir perdão.
Pois lá dentro da igreja
O monstro não fugiria
O seu corpo lá enterrado
Muito guardado ficaria
De modo dessas razões
E o poder das orações
Da Matriz não sairia.
E o homenzarrão foi comendo
Foi comendo, foi comendo
E o seu corpo a cada dia
Foi crescendo foi crescendo
Comia tudo pela frente
Até fruta com semente
Pelo bucho ia descendo.
 
Contam o povo da cidade
Que primeiro devorou
Os mantimentos guardados
Que pela frente encontrou
Até jaca com o talo
Direto pro seu gargalo
O monstrengo empurrou.
O monstro também comeu
Todas frutas do quintal
As verduras lá da horta
Era o prato principal
Comeu tudo sem cheirar
E tão pouco examinar
Sem nada lhe fazer mal.
Em seguida comeu os bois
O cavalos e as galinhas
Porcos, burros e os cabritos
E até as ervas daninhas
E com tanta comilança
Já quase poucando a pança
Peidava enxofre e murrinha.
E não parou de comer
Comeu os bichos dos arredores
Veados, pacas e tatus
Comeu até bichos menores.
Os bichos chegando ao fim
Comeu cela, cabresto e capim
Comeu lama e trem piores.
 
Pesando mais de mil quilos
E rosnando feito cão
O monstro representava
O terror da região
Já pensando em comer gente
Espingolu-se de repente
Caiu morto pelo chão.
Para fazer o caixão
Tão grande e descomunal
Muitas toras de braúnas
Trouxeram para o local
E o corpo muito pesado
Para fora foi puxado
Com carro-de-boi real.
Quem for a Itamarandiba
Observe bem pelo chão
Verás as marcas da roda
Com tamanha perfeição
Que o carro-de-boi deixou
E o tempo nem apagou
O traço da maldição.
Com muita dificuldade
O enterraram na Matriz
Surgiram coisas medonhas
Na boca do diz-que-diz.
A população amistosa
E também religiosa
Foi sentindo se infeliz.
 
E coisas misteriosas
Começaram a acontecer
Rachaduras nas paredes
O fiel podia ver
Até o cabelo do bicho
O padre punha no lixo
Para ninguém perceber.
Ainda não faz muito tempo
Que a Matriz colonial
Fora toda destruída
Por um incêndio infernal
Só podia ser o Cão
Dando a sinalização
Que ele vive no local.
Ungido pelos poderes
Da Santa Cruz no altar
O frei jogava água benta
Para o monstro sossegar
Mesmo hoje na igreja ova
Esta cena se renova
Perante a qualquer olhar.
E o monstro não parou mais
De assustar a região
Havia defronte a igreja
Um pé de cedro fortão
Um dia sem novidade
Na rotina da cidade
O cedro pocou no chão.
 
Se o bicho sair da cova
Como reza a maldição
Comerás tudo pela frente
Até a sétima geração
Para livrar deste horror
Só água benta do Senhor
E com o poder da oração.
Até hoje ainda se vê
Saindo das rachaduras
Do assoalho da igreja
Formigada e tanajura
Diz o povo do lugar
Pra este monstro sossegar
Só mesmo com benzedura.
O monstro da região
Também tem companhia
A mulher de cinco metros
Ser sua prima ele dizia
Em noites de lua cheia
Pela igreja ela rodeia
Em busca de arrelia.
Vou contar para meu filho
Tudo que ouvi de meus pais
Assim com o passar do tempo
Não esqueceremos jamais
O caso que acaba assim
Vem do tempo do sem-fim
Lá de nossos ancestrais.Lenda do Monstro de Itamarandiba em Cordel

 

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