Juventino Ferreira Nunes

 

Juventino Ferreira Nunes, natural de São João Batista ( Itamarandiba), era líder nato, culto, mestre do vernáculo, músico, normalista, professor de português, farmacêutico e dono de farmácia.  Tornou-se político mais por imposição e influência do amigo e então chefe político local Cel. Rodrigo Cordeiro, na cidade mineira de Salinas. 

Em sua época, duas correntes dominavam o panorama político, sendo que a facção o "Fino" era liderada por Juventino Ferreira Nunes,  que mantinha a situação política. A outra facção era o "Grosso", liderada pelo Cel. Idalino Ribeiro, que presidente da Câmara dos Vereadores e Agente Executivo (cargo equivalente a prefeito atualmente). Este aspirava o comando político na região.

Em 1927 as duas facções se envolveram em uma disputa ferrenha pelo domínio do jogo político cujos desdobramentos foram violentos.

 
A chegada do jovem Clemente Medrado Fernandes, filho de André Fernandes, recém formado em medicina para clinicar em Salinas indiretamente mudou os rumos da política do município. Este, além de clinicar, montou uma farmácia e passou fazer concorrência com a farmácia de Juventino Ferreira Nunes. O negócio não prosperou em face da clientela cativa do concorrente. Estava difícil concorrer com a farmácia de Juventino.
 

André Fernandes, que pertencia a facção "Grosso", não se conformando com o infortúnio do filho no ramo farmacêutico, resolveu criar ambiente político para expulsar Juventino Ferreira Nunes de Salinas. Assim, seu filho poderia clinicar e vender seus remédios sem concorrência. E então inúmeros obstáculos foram sendo criados para Juventino Ferreira Nunes.
 
Até meados dos anos 1920 havia um circulo de homens políticos famosos que faziam parte de somente uma facção política que comandou Salinas por várias décadas desde que o município fora criado em 1880 e efetivamente instalado em 1883 com a 1ª. Câmara Municipal. 
 
Cel. Rodrigo Cordeiro foi um dos primeiros chefes políticos de Salinas no final do século XIX e início do século XX. Através dele a política local foi transmitida para Juventino Ferreira Nunes com o aval de outros políticos como Idalino Ribeiro, Luiz Gomes de Oliveira, Olyntho Prediliano de Santanna, Procópio Cardoso, Catolino Gomes de Oliveira, dentre outros.

Logo houve a cisão desse grupo político criando-se duas facções, sendo que uma era o "Fino", comandada por Juventino Ferreira Nunes, e a outra era o "Grosso", comandada pelo Cel. Idalino Ribeiro.
 
A disputa política local se intensificou e chegou a um ponto de confronto extremo de violência. Em uma reunião na residência de André Fernandes, que pertencia a facção "Grosso" e tinha interesses pessoal em destronar Juventino Ferreira Nunes,  ficou acertada a ida do advogado Luiz Gomes de Oliveira a Lavras (atual Vitória da Conquista), na Bahia, onde este contrataria o temido jagunço Manoel Gusmão, popularmente conhecido por Maneca Primo.
 
Poucos dias depois chega a Salinas Maneca Primo com outros 28 jagunços fortemente armados para dar cobertura ao grupo "Facção" ao preço de um conto de réis por cabeça. Ficaram alojados na casa do advogado Luiz Gomes de Oliveira. Havia muita movimentação na cidade e a população ficou em polvorosa. O ambiente estava ficando politicamente explosivo.
 
Desconfiado de tanta movimentação da facção rival, Juventino Ferreira Nunes reúne seus amigos e comandados, entre eles os membros da família Moreira, da Serra do Anastácio, João Gambeira, Diomercindo Victor de Souza, entre outros, que ficaram entrincheirados em sua casa que ficava em frente a Vargem (onde está localizado o atual mercado municipal). O subdelegado do distrito de Taiobeiras (que pertencia a Salinas), Procópio Moreira dos Santos, foi chamado às pressas para defender o chefe político. A Polícia Militar em Salinas, comandada pelo sargento Sebastião  Christiano de Faria, ajudou na defesa da residência de Juventino Ferreira Nunes.
 
Com a casa cercada pelos jagunços da facção "Grosso", no dia 1º. de março de 1927, numa terça-feira de carnaval, teve início do maior tiroteio que se tem notícia da história de Salinas. A facção "Fino" de  Juventino Ferreira Nunes e companheiros se defenderam, com o apoio da autoridade policial, trocando tiros com os jagunços que terminou no dia seguinte. Ambos os lados utilizaram carabinas, cravinotes, espingardas e revólveres. Segundo informações de pessoas da época foram disparados mais de 2 mil tiros contra a residência de Juventino Ferreira Nunes, embora ninguém tenha morrido.
 
Cercado, logo Juventino Ferreira Nunes se deu por vencido, mais pela falta de água na residência cortada pelos jagunços e pela segurança da esposa e filhos. Foi vencido pelo cansaço. Sua esposa, Maria Pimenta, popularmente conhecida por dona Zinha, estendeu uma toalha branca por uma janela pedindo paz. Logo, a mesma dona Zinha saiu de sua casa, sob  complacência dos jagunços, caminhou pelas ruas, passou pela Igreja, rezou, e foi até a casa do Cel. Idalino Ribeiro, que aparentemente tinha ficado neutro no conflito, uma vez quem apareciam no comando do conflito contra Juventino Ferreira Nunes eram André Fernandes, o advogado Luiz Gomes de Oliveira e o irmão Catolino Gomes de Oliveira. Dona Zinha fora dizer ao Cel.   Idalino Ribeiro que o marido Juventino estava disposto a se render pois não queria derramamento de sangue.

Com isso, fora montada uma comissão liderada por Clemente Medrado Fernandes para impor os termos da rendição. No dia seguinte a comissão foi cumprir sua missão. Clemente Medrado Fernandes foi acompanhado do jagunço Maneca Primo e João Rodrigues Pio, ambos armados. Juventino Ferreira Nunes recebeu a comissão e ao perceber a presença do jagunço Maneca Primo, disse aos presentes:

- Se não fosse a presença de mulher e filhos, preferia morrer traspassado por uma bala baiana, mas honrando meu território mineiro.

Assustado, Maneca Primo manobrou a carabina para atirar em Juventino em sua própria casa, mas João Rodrigues impediu desviando o cano da arma. Negociada a rendição, Juventino Ferreira Nunes foi levado para a residência do Cel. Idalino Ribeiro. Todas as pessoas que estavam na residência durante o conflito foram presas e levadas para a cadeia.

Cel. Idalino Ribeiro deu prazo de 24 horas para Juventino Ferreira Nunes sair da cidade para nunca mais voltar. Este saiu pelas fazendas em animais cedidos por Osório Martins dos Anjos, acompanhado por João Costa,  passando por Bandeira (atual Rubelita), Araçuaí, Diamantina, até chegar a Belo Horizonte. De lá foi para a cidade de Manhuaçu, onde em pouco tempo foi nomeado diretor de uma escola pública. Nunca mais retornou a Salinas. Em Manhuaçu foi feito um busto em sua homenagem pelo seu espírito de liderança e capacidade intelectual na escola em que atuou. Era um idealista.

Casa de Juventino Ferreira Nunes onde ocorreu o mais violento conflito pela
disputa do poder político de Salinas em 1927.

(Fonte da imagem: Avay Miranda)


Em Salinas, após o conflito, Cel. Idalino Ribeiro tornou-se chefe político de fato e direito na região. De 1930 a 1958 impôs todos os prefeitos da cidade até perder a eleição de 3 de outubro de 1958, sendo derrotado pelo sobrinho Geraldo Paulino Santanna  para eleições municipais. Ressalta-se que de 1918 a 1930, Cel. Idalino Ribeiro ainda foi presidente da Câmara dos Vereadores e Agente Executivo (equivalente a prefeito atual).

Quanto a Clemente Medrado Fernandes este prosperou em Salinas como empresário e político. Tornou-se deputado federal. Foi responsável pela criação da Escola Agrícola de Salinas em 1953 com recurso do governo federal, que leva seu nome.

Historicamente, percebe-se que o líder político Juventino Ferreira Nunes foi derrubado por um jogo político orquestrado para que a facção política o "Grosso" tomasse o poder local, cujo líder era Idalino Ribeiro. Juventino fez a passagem política do Cel. Rodrigo Cordeiro para o Cel. Idalino Ribeiro. No processo político ficou evidente que foi vítima de sistema político e econômico vigente cuja elite queria o poder a qualquer custo, mesmo que as ações fossem extremas e drásticas como aconteceu. Era a prática coronelista praticada no Brasil no período da República Velha que vigorou até 1930, quando Getúlio Vargas assumiu o poder e impôs o regime do Estado Novo que vigorou por cerca de 15 anos.

Quanto a Maneca Primo e seus jagunços, após o conflito, foram expulsos pelas autoridades policiais de Salinas, passando pelo distrito de Taiobeiras. Ali criaram problemas por três dias bebendo e farreando sem nada pagar e criando desafetos. Seguiram para São João do Paraíso e fizeram o mesmo que em Taiobeiras. Desentendeu-se com Antônio Pena, um morador local e, numa briga entre os dois, foi morto. Fatídico fim para um jagunço que foi determinante para a reviravolta política ocorrida em Salinas.

Interessante  notar como os  itamarandibanos fazem história por toda parte!

 

Fonte dos dados: Blog História de Salinas, de Roberto Carlos Morais Santiago

 

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