Tiburtina de Andrade Alves

 

O tiroteio do dia 6 de fevereiro de 1930, em Montes Claros, envolvendo os militantes da caravana dos Conservadores contra os da Aliança Liberal, precede o movimento político que veio pôr abaixo a Primeira República ou Velha República. Era a Revolução de 1930 que se iniciava em Montes Claros. Contudo, registra-se nos anais da história, que este movimento irrompeu no dia 3 de outubro e terminava no dia 24 do mesmo mês com a deposição do Presidente Washington Luiz Pereira de Souza e a dissolução da representação popular no Congresso Nacional. Em matéria de jornal, disse o jornalista Assis Chateaubriand que a cidade de “Montes Claros fixa no momento culminante da consciência brasileira”.

Por isso podemos afirmar que a cidade de Montes Claros foi palco do primeiro episódio que antecedeu a revolução de 30. As suas ruas foram invadidas por pessoas oriundas de Granjas Reunidas e também da capital do Estado, eles que vieram fazer frente aos inimigos políticos do vice-presidente da República, Dr Fernando de Melo Viana. Ora, sabemos que tudo isso aconteceu durante a visita de Melo Viana quando aqui esteve para participar do Congresso de Algodão e Cereais, evento elaborado com o intuito tão somente de fazer propaganda eleitoral em favor da candidatura de Júlio Prestes para presidente da República, quebrando, assim, a tradição da Política do Café com Leite.

Por assim dizer, a política fervilhava mediante a paixão e o desejo dos militantes da Aliança Liberal em defender a integridade física do seu represente maior, o Dr João José Alves. As ofensas que poderiam advir desses manifestantes – o que de fato ocorreu – representavam para o povo montes-clarense uma violência aos princípios políticos os que se constituem na ética, na moral e nos bons costumes. Os mais exaltados certamente eram os jagunços do conde Alfredo Dolabela. Aliás, toda a comitiva representava perigo às nossas tradições políticas.


Nesta época a cidade de Montes Claros dividia a sua política em duas facções distintas: o Partido de Cima apoiado pela Aliança Liberal e que tinha como chefe o Dr Honorato José Alves, e o Partido de Baixo, amparado na concentração dos Conservadores, e que era liderado pelo deputado Camilo Filinto Prates. Segundo o historiador Henrique de Oliva Brasil o objetivo maior do Dr João Alves era o de “prestar apoio ao seu irmão, o deputado Honorato José Alves”.

Naquela noite, da Estação Ferroviária, a comitiva descia para a região baixa da cidade, quando ao passar em frente da casa do Dr João Alves, aconteceu o que ninguém queria que acontecesse. Na escuridão da noite tiros de carabinas abafaram os gritos de “Viva a Aliança Liberal!” Na ocorrência policial esses gritos foram dados pelo menino Austílio Benjarane Tecles, que era conhecido pelo apelido de Fifi, onde estaria a causa do tiroteio. Depois do cessar-fogo foram contabilizadas as seguintes mortes: José Antônio da Conceição, João Soares da Silva, conhecido pela alcunha de João Gordo, Rafael Fleury da Rocha que era secretário particular do vicepresidente Melo Viana, dona Iracy de Oliveira Novaes, Moacyr Dolabela Portela e o menino, o Fifi “que era tão nosso amigo”, segundo palavras da própria dona Tiburtina Andrade Alves. Escusado será dizer que dona Tiburtina, ao longo dos tempos ficou sendo injustamente a responsável pelos graves acontecimentos naquele final de noite.


O tiroteio em frente à casa do Dr João Alves teve repercussão nacional. O presidente da república, Washington Luiz, preconceituosamente, deu-lhe o nome de Tocaia dos Bugres, tachando assim o povo de Montes Claros de gente semicivilizada. O castigo veio a cavalo. Washington Luiz foi deposto e Getúlio Vargas assume o poder que duraria uma década e meia.

Disse o saudoso escritor Geraldo Tito Silveira que “dona Tiburtina é hoje uma mulher lendária como dona Beija, Joaquina do Pompeu, Maria da Cruz, Chica da Silva e outras, embora tenha sido muito diferente de todas elas, pois não se aproveitava de sua posição para mandar tirar a vida alheia”. Tem razão o ilustre confrade na sua afirmação porque a fama de “mulher carniceira” não lhe foi atribuída senão por vingança ou despeito.


Fonte: Site do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. http://www.ihgmc.art.br/revista_volume1.htm

Foto: arquivo pessoal

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